RN DISCUTE REGULAMENTAÇÃO DA IA E BUSCA EQUILÍBRIO PARA SETOR PRODUTIVO



O Rio Grande do Norte deu mais um passo no debate sobre o futuro da inteligência artificial (IA) ao reunir representantes do poder público, universidades, setor produtivo e especialistas em uma reunião de governança voltada à regulamentação da tecnologia. O encontro, realizado no Sebrae-RN, teve como foco a construção de um ambiente favorável à inovação, sem deixar de lado a necessidade de regras que garantam segurança jurídica e desenvolvimento sustentável.
Para Carlos von Sohsten, analista de Tecnologia da Informação e Comunicação do Sebrae-RN e gestor do IALab, a discussão sobre regulamentação em nível estadual é estratégica para impulsionar o ecossistema local. Segundo ele, o objetivo é criar condições para que a IA funcione como uma alavanca para os negócios, especialmente para micro e pequenas empresas.
“A gente quer discutir como criar um ambiente que favoreça o desenvolvimento dessas tecnologias, sem transformar a regulamentação em uma barreira. A IA veio para automatizar processos e ampliar a eficiência, e isso representa um avanço importante para o nosso ecossistema”, destacou.
Carlos também ressaltou a importância de estabelecer mecanismos de controle (os chamados “guardrails”), que orientem o uso da tecnologia sem limitar seu potencial inovador. Ele compara o cenário a uma corrida: “É preciso garantir que todos tenham acesso às mesmas condições tecnológicas, senão um corre de Fórmula 1 e o outro de patinete”.
Integração institucional e desenvolvimento local
O evento reuniu instituições de diferentes áreas, como direito, academia e setor produtivo, reforçando a necessidade de integração para o avanço tecnológico. Nesse contexto, o Parque Tecnológico Metrópole Digital foi apresentado como um dos principais polos de inovação do estado.
De acordo com o diretor do Metrópole Parque, Rodrigo Romão, o papel da instituição vai além de apresentar números e projetos: trata-se de consolidar uma visão estratégica sobre o impacto da IA na economia.
“A gente precisa entender como levar tecnologia para empresas e startups sem gerar prejuízos do ponto de vista jurídico, econômico e social. O desafio é conectar inovação com adoção real pela sociedade”, afirmou.
O diretor do Metrópole ambém destacou o crescimento da adesão das empresas potiguares à inteligência artificial, indicando uma redução nas barreiras de entrada e maior aproximação entre o setor produtivo e a universidade.
Durante a reunião, Rodrigo também destacou a velocidade de adoção das novas tecnologias e citou o caso do ChatGPT como exemplo. “O ChatGPT conseguiu chegar a 100 milhões de usuários em apenas cinco dias, porque todo o conteúdo de novidade, utilidade e valor que ele criou encontrou uma sociedade com quase zero atrito para receber uma inovação como essa”, afirmou.
Ele comparou com a Netflix, que levou cerca de três anos e meio para atingir o mesmo número de usuários. “Isso mostra como o comportamento da sociedade evoluiu e como as instituições precisam estar atentas a essa velocidade de transformação”, completou.
Goiás como referência nacional
A experiência de Goiás, primeiro estado brasileiro a regulamentar a IA, foi apresentada como inspiração. O líder de projetos e coordenador do Centro de Excelência em Inteligência Artificial da Universidade Federal de Goiás, Thyago Marques, destacou que o avanço só foi possível благодаря à integração entre ensino, pesquisa e mercado.
Segundo ele, a estratégia adotada priorizou a formação de mão de obra qualificada e a aproximação com empresas. “Não adianta só investir em infraestrutura. É preciso desenvolver capital humano para sustentar o crescimento tecnológico no médio e longo prazo”, explicou.
Marques alertou, no entanto, que a regulamentação deve ser construída com cuidado para não engessar a inovação. “Se houver excesso de rigidez, podemos comprometer a capacidade de inovação das empresas e da pesquisa”.
Regulamentação como estratégia de soberania
Para o subsecretário de Tecnologia da Informação de Goiás, Márcio César Pereira, a regulamentação da IA também está diretamente ligada à soberania tecnológica. Ele relembrou que o estado iniciou investimentos na área ainda em 2019, antes mesmo da popularização das ferramentas generativas.
“A ideia sempre foi fazer com que o Estado participasse do desenvolvimento da tecnologia, atraindo talentos e empresas. A regulamentação veio para organizar esse processo e garantir que ele aconteça dentro de parâmetros éticos e sociais”, afirmou.
Entre as medidas adotadas em Goiás, estão a criação de um comitê permanente de avaliação, uso de ambientes de testes regulatórios (sandbox) e incentivo ao desenvolvimento em código aberto (open source).
Desafios e perspectivas
O debate também evidenciou um cenário global em construção, no qual ainda não há consenso sobre os limites e diretrizes para o uso da inteligência artificial. No Brasil, discussões em nível federal seguem em andamento, mas ainda enfrentam críticas por não incluir todos os atores do ecossistema.
Nesse contexto, a iniciativa do Rio Grande do Norte de discutir uma regulamentação estadual surge como alternativa para antecipar soluções e fortalecer o desenvolvimento regional.
“A regulamentação precisa ser ampla e integrada, garantindo proteção às empresas e incentivando a criação de tecnologias locais que representem nossa cultura e nossas necessidades”, concluiu Carlos von Sohsten.
A expectativa é que encontros como esse contribuam para posicionar o estado como um polo emergente de inovação, capaz de desenvolver soluções próprias e competir em um cenário cada vez mais dominado pelas grandes empresas globais de tecnologia.























